ab hoc et ab hac

Cleide, casada com Dori Fontana.
Mãe de 3: Bruna, Daniel e Rafael.


Sou humana. Sou aprendiz. Sou mulher. Sou feliz porque desejo a felicidade. Encontro respostas porque vivo comprometida a buscá-las. Sou amante porque acredito indubitavelmente na capacidade de compartilhar. Esta a minha essência: imperfeita sim... Mas inundada de amor!

Rocinante
pasta a erva do sossego.

A Mancha inteira é calma.
A chama oculta arde
nesta fremente Espanha interior.

De giolhos e olhos visionários
me sagro cavaleiro
andante, amante
de amor cortês a minha dama,
cristal de perfeição entre perfeitas.

Daqui por diante
é girar, girovagar, a combater
o erro, o falso, o mal de mil semblantes
e recolher, no peito em sangue,
a palma esquiva e rara
que há de cingir-me a fronte
por mão de Amor-amante.

A fama, no capim
que Rocinante pasta,
se guarda para mim, em tudo a sinto,
sede que bebo, vento que me arrasta.

—   Sagração - Carlos Drummond

Carne Macia do Coração: Para o meu amante, de regresso à sua mulher - Anne Sexton

carnemaciadocoracao:

Ela está toda ali
Ela derreteu-se cuidadosamente para ti
Moldou-se desde a tua infância, moldou-se a partir das tuas cem colegiais favoritas

Ela esteve sempre ali, meu querido,
Ela é de facto requintada,
Fogo-de-artifício no monótono meio de Fevereiro
E tão real como uma caçarola de ferro fundido

Encaremos o facto, tenho sido um momento
De luxúria. Um aviso vermelho brilhante no porto.
O meu cabelo subindo como fumo da janela do carro.
Amêijoas fora de estação.
Ela é mais do que isso. Ela é o teu ter por ter,
Fez desenvolver o teu prático e tropical crescimento.
Isto não é uma experiência. Ela é toda harmonia.
Ela olha para os remos e toletes das baleeiras,

Colocou flores silvestres à janela ao pequeno-almoço,
Ei-la sentada no torno do oleiro ao meio-dia,
Pôs cá fora três crianças ao luar,
Três querubins  desenhados por Miguel Angêlo,
Fez isto com as suas pernas abertas
Nos terríveis meses na capela.
Se deres uma vista de olhos, as crianças estão ali
Como delicados balões suspensos no tecto.

Ela trazia também cada uma para o hall
Depois da ceia, as cabeças inclinadas por respeito,
Duas pernas protestando, pessoa a pessoa,
A face corada com uma canção e o seu sono.

Devolvo-te o teu coração.
Dou-te permissão _ 
Para o rastilho dentro dela, palpitante
Iradamente na lama, para a cabra nela
E o enterro da sua ferida _

Para o pálido e trémulo fulgor debaixo das costelas,
Para o marinheiro bêbedo que espera no seu pulso esquerdo,
Para o colo da mãe, para as meias,
Para o cinto de ligas, para a chamada _
A curiosa chamada
Quando desapareceres e braços e seios
E puxares a fita cor de laranja nos cabelos dela
E responderes à chamada, a curiosa chamada.

Ela é tão nua e singular.
Ela é a soma de ti e do teu sonho.
Escala-a como um monumento, passo a passo.
Ela é sólida.

Quanto a mim, sou uma aquarela.
Diluo-me
.

Hoje é domingo
e eu acordei quotidiana.
Vontade nenhuma de sair da cama.
Do lado de lá da janela,
um sabiá insistente.
Repetitivo,
repetitivo,
repetitivo.
Basta-me como som.

No tapete do quarto,
os mesmos fiapos de sol,
que se parecem com cabelos de anjos.
Estriados pelo chão.
Repetitivos.

Sobre a cômoda,
a santa barroca de olhar perdido
recebe minha oração matinal:
sempre o mesmo pedido.
Repetitivo.

Vejo o retrato oval de meu avô,
na parede de papel listrado.
Colarinho engomado,
olhar altivo.
Meu filho se parece com ele.
Gosto dessa continuidade.
Repetitivo.

Do criado-mudo,
o telefone rasga o silêncio, impositivo.
- Alô, quem fala?
- Desculpe, foi engano.
Repetitivo.
Fecha-se o círculo do meu quotidiano.

—   

Toada - Flora Figueiredo in: Chão de Vento

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada dos meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

—   

Carta - Drummond

Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado…
Digo pra mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?…

—   ♦ Florbela Espanca

Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti

carnemaciadocoracao:

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos 
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor. 

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. 
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. 
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz. 
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. 

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. 
A tomar café correndo porque está atrasado. 
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem. 
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. 
A sair do trabalho porque já é noite. 
A cochilar no ônibus porque está cansado. 
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. 

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. 
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, 
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. 

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. 
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. 
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. 
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. 

E a ganhar menos do que precisa. 
E a fazer filas para pagar. 
E a pagar mais do que as coisas valem. 
E a saber que cada vez pagará mais. 
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra. 

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. 
A abrir as revistas e a ver anúncios. 
A ligar a televisão e a ver comerciais. 
A ir ao cinema e engolir publicidade. 
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. 
A gente se acostuma à poluição. 

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. 
A luz artificial de ligeiro tremor. 
Ao choque que os olhos levam na luz natural. 
Às bactérias da água potável. 
A contaminação da água do mar. 
A lenta morte dos rios. 

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, 
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. 
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, 
um ressentimento ali, uma revolta acolá. 
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. 
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. 

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. 
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo 
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. 

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. 
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se 
da faca e da baioneta, para poupar o peito. 
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, 
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Alcoólicas - Hilda Hilst

carnemaciadocoracao:

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
 

(Alcoólicas - IV)

* * *

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

Súplica - Miguel Torga

carnemaciadocoracao:

Agora que o silêncio é um mar sem ondas, 
E que nele posso navegar sem rumo, 
Não respondas 
Às urgentes perguntas 
Que te fiz. 
Deixa-me ser feliz 
Assim, 
Já tão longe de ti como de mim. 

Perde-se a vida a desejá-la tanto. 
Só soubemos sofrer, enquanto 
O nosso amor 
Durou. 
Mas o tempo passou, 
Há calmaria… 
Não perturbes a paz que me foi dada. 
Ouvir de novo a tua voz seria 
Matar a sede com água salgada.

Que me amem mendigos, órfão, párias
com os quais me assemelho neste mundo
Que me amem as aves solitárias
os cães de raça, o vira-lata imundo

Eu quero que me aceitem como sou
Na essência autêntica do mal ou bem
e saibam que eu não volto e sempre vou
à procura de mim e de ninguém

Me amem os carentes desta terra
os que têm fome e lutam contra a guerra
os que precisam da palavra: amor

Me amem com as forças do universo
com as sílabas tônicas do verso
e com todas as pétalas da flor!

—   

Cecília Bossi

“Penetra tua carne a minha
e rasga delicada minhas entranhas,
conhecidas.
Combinam meus encaixes e teus.
E quantos ainda vamos inventar?
Sorrimos faceiros, seguros,
lânguidos e despreocupados.
Pois somos únicos e sabemos,
amanhã e todas as outras manhãs,
nos faremos novamente descobrir.”

—   ♦ Eloisa Elena - Das Infinidades

Escreve-me! ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu, já e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração

"Amo-te!" cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então… brandas… serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…

—   

Escreve-me… - Florbela Espanca in: Coleção Melhores Poemas

O quanto perco em luz conquisto em sombra.
E é de recusa ao sol que me sustento.
às estrelas, prefiro o que se esconde
Nos crepúsculos graves dos conventos.

Humildemente envolvo-me na sombra
que veste, à noite, os cegos monumentos
isolados nas praças esquecidas
e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce
a noite côncava e profunda, enquanto
clara manhã revive em tua face.

Dá amar teus olhos mais que o corpo
com esse escuro e amargo desespero
com que haverei de amar depois de morto.

—   

Soneto - Carlos Pena Filho in: Livro Geral - Antologia Brasileira de Literatura

“Hoje não vou,
que é dia ruim de decisão:
o ninho apareceu cheio de ovos,
o vaso me presenteou com botões novos,
a lua fez alongamentos verdes sobre o mar.
Dia de emoção não é dia de ir.
Quem sabe amanhã amanhece chovendo
e eu fico matemática.”

—   

Bom-senso - Flora Figueiredo

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
- “Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua com ciúme:

-“Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!”
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

-“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!”
Mas, o sol, inclinando a rútila capela:

-“Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta azul e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vagalume?”

—   

Círculo Vicioso - Machado de Assis in: Poesias Completas

“Saudade repentina,
das sem começo nem fim.
E eu perdida no meio.
Saudade rápida,
que vem e fica.
Das de doer osso do peito,
dar nó no coração.
Êta, saudade besta!
Sem propósito.
Saudade quando bate é que nem bronca de mãe,
não adianta tapar o ouvido, fechar os olhos, cantar bem alto.
É flecha certa com direção.”

—   

Eloísa Elena in: Das Infinidades